Com o ESG no núcleo da governança, as empresas deixam de tratar a sustentabilidade como uma agenda paralela e passam a incorporá-la à estratégia, à gestão de riscos e à geração de valor de longo prazo.
O papel do conselho visa proteger o desempenho e a confiança em longo prazo e deve integrar a supervisão estratégica dos aspectos ESG (social, ambiental e governança) da empresa, fortalecendo a resiliência, impulsionando o crescimento sustentável e cumprindo seu dever fiduciário.
Em um ambiente marcado por maior pressão regulatória, judicialização, transformação cultural e novas exigências de transparência, os conselhos de administração e seus comitês de assessoramento precisam ter uma abordagem sistemática sobre os fatores que impulsionam a sustentabilidade e quem são as partes interessadas. Além disso, a gestão de operações e da cadeia de suprimentos é determinante, assim como os aspectos ESG, que podem afetar a estratégia corporativa e a gestão de riscos.
A governança dos aspectos socioambientais está intrinsecamente ligada aos negócios. Entretanto, definir a estrutura, a responsabilidade e a maneira como as questões ESG são tratadas e conectadas nos processos decisórios e a estratégia, depende da empresa, do seu setor, da sua cultura, bem como dos seus desafios e objetivos. O fato é que os conselhos de administração e as empresas que eles representam não podem negligenciar o ESG e todas as suas implicações.
Uma pesquisa realizada pela EY com líderes empresariais mostra que a governança corporativa sustentável é fundamental para o valor em longo prazo, superando as pressões de curto prazo. Dos entrevistados, 78% afirmaram que “o foco no crescimento sustentável e inclusivo tem sido fundamental para construir confiança com as partes interessadas nestes tempos incertos”.
Os conselhos de administração podem se concentrar em cinco áreas relacionadas à governança para garantir o equilíbrio entre as necessidades de curto e longo prazo, conforme listado a seguir.
- Atributos: dinâmica do conselho, incluindo competências, diversidade e valores.
- Risco: governança e supervisão de riscos.
- Recompensa: planos de remuneração para incentivar o foco no valor a longo prazo e o papel central das métricas ambientais, sociais e de governança (ESG).
- Engajamento: definir as principais partes interessadas e construir uma estratégia de engajamento de ponta a ponta, incluindo um ciclo de feedback.
- Autenticidade: divulgação transparente e autêntica dos relatórios sobre o progresso em relação às metas de valor de longo prazo e aos principais indicadores de desempenho (KPIs), com clara responsabilização.
Convergência das responsabilidades ESG
A empresa precisa desenvolver controles robustos para coletar, validar e monitorar informações relacionadas aos três pilares do ESG. Já o conselho de administração deve assegurar que os dados divulgados aos stakeholders apresentem consistência, transparência, confiabilidade e materialidade.
Os investidores, cada vez mais, querem compreender qual é o papel efetivo do conselho na supervisão das questões socioambientais e como a alta administração incorpora esses fatores à estratégia corporativa. Também cresce a demanda por informações sobre os impactos de riscos climáticos e oportunidades sustentáveis sobre modelos de negócio, cadeias de valor, desempenho operacional e fluxo de caixa.
É nesse cenário que ganha força o chamado “accountability financeiro da sustentabilidade”. A busca por informações sólidas, comparáveis e auditáveis tornou-se um desafio estratégico para empresas, investidores e demais stakeholders. Mais do que uma exigência reputacional, trata-se de reduzir riscos decorrentes da omissão de informações relevantes para a tomada de decisão.
O International Sustainability Standards Board publicou, em junho de 2023, suas duas primeiras normas globais: a IFRS S1, voltada à divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, e a IFRS S2, focada em riscos e oportunidades ligados ao clima. As normas permitem aos investidores avaliar os impactos da sustentabilidade sobre os negócios e sua conexão com as demonstrações financeiras. O ISSB tem como objetivo desenvolver normas que permitam o fornecimento, por parte das empresas, de informações de alta qualidade e, globalmente, comparáveis acerca dos riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade, considerando a materialidade financeira.
O Brasil assumiu protagonismo global nesse processo ao se tornar o primeiro país emergente a anunciar formalmente a adoção das normas IFRS S1 e S2. Em outubro de 2023, o governo federal e a Comissão de Valores Mobiliários oficializaram a adoção do padrão internacional. A Resolução CVM 193 estabeleceu que a divulgação de relatórios de sustentabilidade alinhados às normas IFRS será obrigatória para companhias abertas, fundos de investimento e securitizadoras a partir de janeiro de 2026, com publicação dos primeiros relatórios em 2027.
Dados da 20ª edição do estudo “A Governança Corporativa e o Mercado de Capitais – Brasil”, publicado pela KPMG, mostram o avanço da pauta ESG nas companhias brasileiras:
- 80% das empresas do Novo Mercado divulgam informações ESG;
- 86% das empresas do Nível 2 adotam práticas semelhantes;
- 87% das empresas do Nível 1 também realizam divulgações;
- os comitês de sustentabilidade já figuram entre os cinco comitês de assessoramento mais frequentes dos conselhos de administração.
A complexidade crescente da agenda ESG exige dos conselheiros uma visão mais ampla e multidisciplinar. Nesse sentido, a criação de comitês especializados pode fortalecer análises técnicas, aprofundar discussões e qualificar recomendações ao conselho. Embora tenham caráter consultivo, esses comitês ampliam a capacidade de monitoramento e antecipação de riscos.
Diante desse cenário, dominar os temas ESG deixou de ser uma questão de posicionamento institucional e passou a representar um imperativo estratégico e regulatório para a governança corporativa de alto nível.
O relatório “Fiduciary Duty in the 21st Century” concluiu que ignorar fatores de longo prazo – incluindo questões ambientais, sociais e de governança – pode representar falha no dever fiduciário dos investidores e administradores.
Como professora da Fundação Dom Cabral, atuando no Programa de Desenvolvimento de Conselhos (PDC), percebo diariamente a importância de preparar conselheiros para integrar riscos e oportunidades ESG aos processos decisórios. A pressão regulatória, os compromissos setoriais e a crescente materialidade financeira dos temas socioambientais exigem uma abordagem cada vez mais estratégica.
Fica evidente a importância de calibrar o olhar neste ambiente educacional e proporcionar em sala de aula uma abordagem assertiva para esse nível de profissionais que estão atuando nos processos decisórios e responsáveis por integrar no dia a dia os riscos e oportunidades. Consideramos a pressão mercadológica, compromissos setoriais e a governança empresarial dos aspectos socioambientais na materialidade financeira.
O mais recente Guia do CEO, publicado pelo World Economic Forum, mostra que a economia verde já movimenta mais de US$ 5 trilhões por ano, tornando-se o segmento de crescimento mais dinâmico do mundo depois do setor de tecnologia. Segundo o relatório, receitas verdes crescem, em média, duas vezes mais rápido do que receitas convencionais, enquanto empresas posicionadas nesses mercados tendem a acessar capital mais barato e obter avaliações superiores nos mercados financeiros. Baseado nas experiências de líderes que expandiram com sucesso seus negócios sustentáveis e superaram obstáculos comuns, o documento oferece inspiração e lições valiosas para empresas que buscam agir com ousadia e aproveitar o valor oferecido por um mercado que deverá ultrapassar US$ 7 trilhões até 2030.
No Brasil, vale destacar também as oportunidades do Programa Eco Invest, criado pelo governo federal com o objetivo de destravar investimentos privados e atrair capital externo para projetos sustentáveis de longo prazo. Até o momento, os três leilões realizados somam potencial de investimentos de R$ 127 bilhões.
Diante de todos esses movimentos, a reflexão final é inevitável: ESG não pode mais ser tratado apenas como proteção reputacional ou obrigação regulatória. Trata-se de um fator estratégico de eficiência, competitividade e resiliência empresarial. Empresas que compreendem essa transformação tendem a fortalecer sua capacidade de adaptação e geração de valor no longo prazo. Já aquelas que ignorarem essas potencialidades correm o risco de comprometer a própria viabilidade futura.
Fonte: https://sejarelevante.fdc.org.br/da-reputacao-a-estrategia-o-esg-no-nucleo-da-governanca/

