Ponto de inflexão: por que a escalada da IA depende dos ativos naturais?

Brasil na cadeia global de minerais estratégicos

De repente, geopolítica entra no centro da equação de todos os negócios, tornando inevitável uma abordagem mais ampla sobre os temas que estão na crista da onda. Nesse contexto, o papel do Brasil na cadeia global de minerais estratégicos ganha relevância crescente, à medida que inteligência artificial, energia, minerais críticos e segurança de suprimentos passam a influenciar decisões econômicas, industriais e geopolíticas em escala global.

E não estamos falando de uma marolinha – a reflexão cabe sobre temas como datacenters, disponibilidade de energia, terras raras para minerais críticos, e entra na conversa a lua e a possibilidade de exploração de todo potencial que por ali está.

No IA Summit 2026, realizado pela EXAME Saint Paul, no dia 2 de junho, em São Paulo, trouxe logo na abertura uma palestra provocativa do geofísico Sérgio Sacani, o “Triângulo do Futuro” – Como a Inteligência Artificial, as Terras Raras e a Exploração da Lua se conectam para definir a próxima era da civilização.

O avanço da IA chegará ao ponto onde será impulsionado pela disputa por recursos lunares. Ainda de acordo com Sacani, “a continuidade do que estamos vivendo está na Lua”.

A palestra também abordou o custo ambiental do processamento das terras raras, pois há que se considerar nesta equação o fato de que, a produção de uma tonelada de minerais críticos pode gerar duas mil toneladas de rejeito tóxico, ou seja, a discussão não se limita à disponibilidade do recurso.

Ela envolve tecnologia, política industrial, impacto ambiental e capacidade de processamento para agregar valor, e não correr o risco de ser tratado apenas como “commodities”.

Minerais e metais são fundamentais para a vida moderna, fornecendo a base para indústrias, comunidades sustentáveis e progresso social.

Dos dispositivos que nos conectam aos sistemas de energia limpa que alimentam nossas casas e empresas, esses recursos são cruciais para a construção de um futuro mais sustentável e equitativo.

Neste sentido, o esforço global para combater as mudanças climáticas e alcançar uma economia de baixo carbono, trouxe os minerais críticos para o centro das atenções.

Esses minerais são indispensáveis para tecnologias de energia limpa e inovação industrial, ambas essenciais para atingir as metas climáticas internacionais. No entanto, destravar seu potencial exige enfrentar os desafios relacionados ao seu fornecimento e produção.

Capital natural: o Brasil na era dos minerais críticos

O Brasil possui uma enorme oportunidade econômica em minerais críticos e raros.

Responsável por cerca de 23% dos depósitos globais de terras raras e 94% das reservas mundiais de nióbio, o país pretende alavancar esses recursos para ampliar o potencial na cadeia de suprimentos.

O desafio e o potencial residem na ampliação da extração local e no desenvolvimento de manufatura de alta tecnologia.

È necessário estruturar um plano estratégico quanto as oportunidades e os desafios para o Brasil liderar a transição energética global e fortalecer seu papel em tecnologias estratégicas para atrair investimentos internacionais.

Entretanto, transformar potencial em liderança, exige mais do que riqueza mineral. O Brasil ainda enfrenta desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos, além da necessidade de gerar valor internamente e fazer a transição para um modelo que não dependa exclusivamente da exportação.

O Ministério de Minas e Energia, publicou em 2026 um documento chamado “Minerais Críticos do Brasil: Um Guia para Investidores Estrangeiros”. E destaca:

“A transição para uma economia global de baixo carbono dita o ritmo da mitigação das mudanças climáticas e a urgência das estratégias de transição energética”

Para que as metas globais de descarbonização sejam atingidas, o mercado precisa urgentemente de novas fontes minerais e de uma diversificação geográfica robusta nas etapas de processamento e refino, mitigando assim os riscos de concentração nas cadeias de valor.

O guia traz o seguinte cenário: “Para apoiar essa expansão, o ecossistema brasileiro oferece um capital humano abundante e adaptável, respaldado por uma rede consolidada de laboratórios, institutos e universidades voltados para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) no setor mineral”.

O documento aponta ainda que o país está estrategicamente aberto ao Investimento Estrangeiro Direto (IED) que promove a transferência de tecnologia, a geração de riqueza e a integração da cadeia de valor.

Esse desenvolvimento ocorrerá em estrita conformidade com as diretrizes ESG (Ambiental, Social e de Governança), garantindo a segurança e a dignidade ocupacional, o respeito e o desenvolvimento das comunidades locais e um compromisso absoluto com a preservação ambiental.

Reservas, fluxos comerciais e tendências geopolíticas

Compreender onde as reservas estão localizadas, quem controla a produção, quem depende de importações e quais tendências globais estão emergindo é essencial para posicionar o Brasil estrategicamente nesse cenário.

Os minerais críticos estão distribuídos de forma desigual globalmente.

Países com vantagens geológicas e uma tradição de mineração consolidada detêm reservas significativas e atraem o interesse geopolítico das grandes potências.

A concentração pode se tornar um risco ou oportunidade, diante de um cenário que pode criar dependência e vulnerabilidade a choques externos.

Por exemplo, em 2023, a China implementou restrições à exportação de grafite refinado e gálio, insumos estratégicos para baterias e semicondutores – em resposta a disputas comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia.

Em 2025, a China impôs restrições às exportações de terras raras, essenciais para tecnologias avançadas – em retaliação às novas tarifas americanas.

Com 91% do refino global de terras raras concentrado na China em 2024, a questão tornou-se um tópico estratégico nas negociações entre os Estados Unidos e o Brasil.

Isso ressalta como o controle sobre estágios mais avançados da cadeia de valor mineral pode ser usado como uma ferramenta geopolítica.

Apesar dos obstáculos existentes, o Brasil ocupa uma posição única no mapa global de minerais críticos. Com sua notável diversidade geológica e vasta extensão territorial, o país possui um sólido portfólio de recursos naturais.

Em lítio, o Brasil já está entre os cinco maiores produtores mundiais, com destaque para o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. A produção nacional deverá crescer exponencialmente até 2030.

O mesmo se aplica ao grafite natural, cujas reservas brasileiras estão entre as maiores mundiais, embora a industrialização local, como a produção de grafite esférico, ainda esteja em estágio inicial.

No entanto, a abundância de recursos não se traduz automaticamente em liderança geopolítica ou industrial. O potencial deve ser convertido em estratégia.

A transição energética e a reestruturação das cadeias de suprimentos globais criaram uma enorme oportunidade, mas também um ponto de inflexão: o Brasil precisa decidir se continuará sendo um exportador de commodities ou se posicionará como um protagonista industrial na economia verde.

E é exatamente aqui que o triângulo se fecha. A exploração da Lua, com seus depósitos de metais e a promessa do Hélio-3, é a fronteira que Sacani aponta quando diz que a continuidade do que vivemos está lá fora, mas é uma aposta de prazo longo, medida em décadas e não em ciclos de investimento.

Tratá-la como saída para o gargalo de hoje é adiar a conversa que importa, porque a curva de demanda da IA é agora, a pressão sobre energia e minerais é agora, e a resposta de curto e médio prazo continua sendo terrestre, nas mãos de quem controla não apenas a jazida, mas o refino e a manufatura que agregam valor.

A China entendeu isso primeiro, e por isso concentra a maior parte do processamento global de terras raras e converte esse controle em instrumento de barganha geopolítica.

O Brasil chega a essa mesa com um ativo que poucos têm, a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mais de 90% do nióbio conhecido, lítio e grafite em expansão, mas recurso no subsolo não é estratégia, é só potencial.

A pergunta que define a próxima década não é se temos o mineral, e sim se vamos vendê-lo barato como commodity ou adensar a cadeia até capturar o valor que hoje escapa para fora.

Essa é uma decisão de negócio e de soberania antes de ser uma pauta ambiental. Enquanto a conversa pública mira a Lua, a corrida que vai definir quem lidera a economia de baixo carbono está sendo disputada no chão de fábrica e na geologia que o Brasil já possui debaixo dos pés.

O ativo está aqui. Falta a decisão de transformá-lo em poder econômico, antes que a janela se feche.

 

*Por Onara Lima e Filipe Alvarez

Artigo original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em https://exame.com/esg/ponto-de-inflexao-por-que-a-escalada-da-ia-depende-dos-ativos-naturais/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

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