Riscos Geoeconômicos e os Fatores de Pressão ESG

Confrontos econômicos serão a maior ameaça à estabilidade global em 2026, segundo relatório do Fórum Econômico Mundial. O relatório anual, que está em sua 21ª edição, revelou que metade dos entrevistados prevê um mundo turbulento ou conturbado nos próximos dois anos — um aumento considerável em relação aos 36% registrados no relatório do ano passado.

“O Relatório de Riscos Globais oferece um sistema de alerta precoce, uma vez que a era da concorrência agrava os riscos globais — desde o confronto geoeconômico à tecnologia descontrolada e ao aumento da dívida — e altera nossa capacidade coletiva de lidar com eles”, disse Saadia Zahidi, diretora-gerente do WEF.

Em meio a crescentes rivalidades e conflitos prolongados, o confronto geoeconômico ameaça as cadeias de suprimentos, a estabilidade econômica global e a capacidade de cooperação necessária para responder a choques econômicos. As crescentes preocupações com a dívida e as potenciais bolhas de ativos, agravadas pelas tensões geoeconômicas, podem desencadear uma nova fase de volatilidade nos mercados globais.

Será que a agenda da sustentabilidade e seus pilares ESG perderam força neste cenário econômico?

Essa visão de que a agenda da sustentabilidade econômica perdeu tração ou senso de prioridade é uma abordagem rasa e de curto prazismo, que não se sustenta ao incorporar os riscos e oportunidades dos aspectos ESG na tomada de decisão com visão de longo prazo. O cenário global de 2025-2026 é marcado por uma “policrise” de múltiplos conflitos geopolíticos interconectados, caracterizados por intensa polarização, disputas territoriais, supremacia tecnológica (IA) e competição por recursos naturais críticos.

A fragmentação da ordem mundial acompanha o aumento da volatilidade econômica e a escalada de tensões entre grandes potências. Diante dessa realidade, as tecnologias sustentáveis, os investimentos em “green economy”, os crescentes riscos climáticos e a lógica do sistema financeiro manterão essa agenda latente, indo além de políticas públicas, com uma base estrutural que não desaparece com mudanças de governo. Quando uma tecnologia se torna economicamente atraente, ela continua a escalar mesmo em ambientes políticos adversos.

A economia verde é uma oportunidade de vários trilhões de dólares e cresce mais rápido do que nunca. De acordo com dados apresentados no Guia de Crescimento na Economia Verde do Fórum Econômico Mundial (2025):

“A economia verde ultrapassou US$ 5 trilhões em valor anual e está projetada para ultrapassar US$ 7 trilhões até 2030, tornando-se o segundo setor global de crescimento mais rápido, depois da tecnologia. As receitas verdes estão crescendo duas vezes mais rápido do que as linhas de negócios convencionais em milhares de empresas ao redor do mundo. Mais de 50% das emissões globais podem ser reduzidas usando tecnologias já competitivas em termos de custo hoje, como solar, eólica, baterias, veículos elétricos, bombas de calor e soluções de eficiência energética. À medida que os riscos climáticos se intensificam em todo o mundo, os mercados de adaptação e resiliência (avaliados em US$ 1,1 trilhão) estão crescendo rapidamente, abrangendo desde materiais e sistemas resilientes ao clima até análises avançadas e tecnologias de defesa contra enchentes”.

Nesse cenário, o Brasil é um país com grande vantagem em capital natural e energia limpa; entretanto, será necessária uma governança estratégica, amparada no âmbito regulatório e político, para transformar esse “potencial” em resultados efetivos e consistentes, com capacidade de escalar soluções que considerem a inovabilidade.

Tais oportunidades tendem a ser implementadas por negócios que já compreenderam a influência dos Fatores de Pressão ESG nas companhias e os integraram à estratégia e ao modelo de negócio, com capacidade de ajustes que podem surgir, pressionados por choques geopolíticos e escolhas políticas de curto prazo. Seus fundamentos permanecem ancorados em determinantes econômicos objetivos que não desaparecem com os ciclos políticos; no máximo, sua trajetória pode ser recalibrada. A questão fundamental é quem estará em melhor posição quando essa agenda inevitavelmente retornar ao centro das atenções.

De acordo com o livro Vi$ão ESG: Negócios Resilientes, os fatores de pressão ESG nas companhias podem ser estruturados em quatro pilares:

  • Emergência climática e seus impactos transversais, que expõem setores inteiros a riscos físicos, regulatórios e de transição. 
  • A reconfiguração do fluxo de capital e a incorporação da sustentabilidade na gestão de riscos financeiros, tornando critérios ambientais, sociais e de governança determinantes para o acesso ao capital. 
  • A escassez de recursos e os desafios do sourcing global, que exigem inovação em cadeias produtivas e novas estratégias para garantir competitividade no longo prazo. 
  • A ascensão de um novo perfil geracional, em que propósito, impacto positivo e ética empresarial influenciam a relação entre talento, consumo e reputação corporativa. 

 

Vinculando padrões ESG ao risco geopolítico

Compreender a intersecção entre os padrões ESG e os riscos geopolíticos, e integrá-los, possibilita navegar por sanções, conformidade e sustentabilidade em ambientes de conflito. Operar em zonas de conflito é um desafio de alto risco, em que cada decisão pode ter repercussões em ecossistemas frágeis e comunidades vulneráveis. Para as empresas que podem ser atingidas por esses cenários turbulentos, padrões ESG robustos não são apenas diretrizes, mas fatores de resiliência para o crescimento sustentável e o sucesso a longo prazo.

Áreas de conflito ou instabilidade geopolítica apresentam desafios multifacetados que vão muito além dos riscos operacionais tradicionais. Os investidores nessas regiões enfrentam obstáculos que abrangem riscos políticos, financeiros, físicos e logísticos, contribuindo para incertezas fiscais e financeiras que se estendem às cadeias de suprimentos. Essas vulnerabilidades podem resultar em interrupções imprevistas na produção e no ritmo dos negócios, levando a perdas de receita, atrasos, queda na produtividade e impactos financeiros e econômicos.

Além das interrupções operacionais, as áreas consideradas “zonas críticas” acarretam inúmeras externalidades negativas para os investimentos. As empresas nessas regiões são particularmente vulneráveis a eventos disruptivos que podem levar a perdas financeiras significativas e dificultar a recuperação de ativos e receitas perdidos.

As zonas de conflito frequentemente enfrentam escrutínio por parte de stakeholders, da sociedade civil e de grupos de defesa de direitos humanos. Isso pode resultar em repercussão negativa decorrente de alegações de práticas antiéticas ou descumprimento de padrões ESG. Tais críticas podem levar a boicotes direcionados, redução da confiança dos investidores e queda no desempenho das ações.

Empresas que operam em áreas geopoliticamente arriscadas muitas vezes enfrentam requisitos de empréstimo mais rigorosos, com custos de financiamento elevados. Os credores, receosos dos riscos aumentados, normalmente exigem um prêmio para compensar sua exposição. Regiões instáveis geralmente estão correlacionadas com a desvalorização da moeda e a hiperinflação, corroendo ainda mais o poder de compra e dificultando a repatriação de lucros.

À medida que as empresas são submetidas a padrões mais elevados de sustentabilidade e conduta ética, a pressão para alinhar as operações comerciais com os direitos humanos e as considerações ambientais tende a aumentar. É essencial adotar uma abordagem proativa e transparente em relação às responsabilidades ESG, pois a omissão nesse sentido acarretará não apenas danos à reputação, mas também potenciais consequências legais e financeiras.

No artigo publicado pela “ScienceDirect”, em 2023, o estudo identificou a relação entre recursos naturais e conflitos de governança, avaliando o papel da governança na gestão desses recursos. Foram consideradas três categorias significativas de desafios — capacidade, conectividade e conhecimento — e três domínios da boa governança: eficácia, envolvimento e eficiência.

Os resultados destacaram que países em desenvolvimento provavelmente precisarão de maior poder de decisão, recursos financeiros e humanos, além de liderança para enfrentar desafios cruciais relacionados a recursos e mecanismos de resolução de conflitos. Por outro lado, pesquisas sobre estruturas de governança da gestão de recursos naturais em países industrializados frequentemente apontam problemas relacionados à clareza das políticas e ao alinhamento de objetivos e metas das instituições envolvidas.

O estudo reforça a importância de desenvolver novas capacidades organizacionais e estruturas de governança essenciais para uma melhor gestão dos recursos naturais. 

(fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301420723006530)

 

Reflexão final e um exercício que as empresas precisam fazer: Quais são as possíveis implicações desses riscos e suas interconexões com o seu negócio no curto, médio e longo prazo? Para compreender esse cenário é crucial ampliar o conhecimento e visão, com capacidade de fazer gestão dos fatores de pressão global e local, gestão de riscos e mapear as oportunidades.

 

Fontes consultadas: 

Livro Vi$ão ESG: Negócios Resilientes 

https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/

https://www.weforum.org/publications/already-a-multi-trillion-dollar-market-ceo-guide-to-growth-in-the-green-economy/

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301420723006530

 

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